O mundo ideal de homens e monstras: (re)existência não assimilável, dissidência e insurgência no conto “As coisas que perdemos no fogo”, de Mariana Enriquez
DOI:
https://doi.org/10.5281/zenodo.22696753Palavras-chave:
Monstruosidade, Corpos dissidentes, Fabulações queer/cuír, Geografias do poder, Mariana EnriquezResumo
Este artigo analisa o conto “As coisas que perdemos no fogo”, de Mariana Enriquez, a partir de uma abordagem teórico-crítica que articula estudos feministas, teoria queer/cuír e reflexões sobre o monstruoso, em diálogo com o manifesto “Eu sou o monstro que vos fala”, de Paul B. Preciado, com as postulações de Jack Halberstam em A arte queer do Fracasso e com as contribuições de María Lugones, Silvia Federici, Rita Segato e Verónica Gago. Na narrativa, mulheres que se queimam voluntariamente transformam dor e estigma em potência política e identidade insurgente, produzindo uma monstruosidade que emerge como categoria dissidente, capaz de recusar lógicas de vitimização, exclusão, cura e assimilação. Ao constituírem uma comunidade de corpos que escapam à normatividade de gênero, sexualidade e linguagem, tensionam padrões biomédicos, epistemológicos e socioculturais, e sugerem um deslocamento radical da matriz binária de sexo-gênero que sustenta o patriarcado. A investigação examina a articulação entre monstruosidade, geografias do poder, fabulações dissidentes e fracasso queer/cuír como estratégias estéticas e políticas de resistência. Discute, por fim, em que medida as “mulheres ardentes” configuram uma forma de monstruosidade queer/cuír, simultaneamente subjetiva e coletiva, mobilizada como linguagem poética e política de (re)existência e prática de reescrita dos corpos, capaz de converter o abjeto em locus de agência e de transformação que desestabiliza regimes epistemológicos e biopolíticos hegemônicos.
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