v. 16 n. 1 (2025): Horizontes do Fazer Historiográfico: Teoria da História e História da Historiografia
A pergunta pelo que faz da história um saber específico e, ao mesmo tempo, um espaço aberto de disputa atravessa os debates contemporâneos em Teoria da História e História da Historiografia. Não se trata apenas de discutir técnicas, métodos ou procedimentos de pesquisa, mas de interrogar o próprio lugar social da disciplina, suas promessas e seus fracassos, suas cumplicidades com projetos de poder e suas possibilidades de crítica. A teoria e a história da historiografia deixam de ser zonas periféricas para se converter em laboratórios privilegiados de reflexão sobre tempo, linguagem, memória e imaginação histórica. É nesse horizonte que se inscreve o dossiê “Horizontes do Fazer Historiográfico: Debates Contemporâneos em Teoria da História e História da Historiografia”, propondo que se tome o ofício do historiador não como uma tradição estabilizada, mas como um campo em aberto, permanentemente tensionado por novas experiências do passado e por novas sensibilidades políticas e epistêmicas.
Se as grandes narrativas sobre a modernidade costumavam supor uma temporalidade linear, cumulativa e progressiva, os debates contemporâneos em Teoria da História têm insistido na necessidade de deslocar esse regime de historicidade. Crises ecológicas e humanitárias, violências coloniais não reparadas, políticas de extermínio e formas renovadas de autoritarismo desafiam a imagem de um tempo que se deixaria ordenar por noções de avanço, superação ou maturidade histórica. A reflexão teórica volta a indagar as categorias que estruturaram a disciplina, como causalidade, objetividade e evidência, mas o faz a partir de uma consciência aguda de que não existe observação neutra do passado. Todo gesto historiográfico está atravessado por relações de poder, por localizações sociais e por linguagens que organizam o visível e o dizível. A teoria se torna, assim, um exercício de vigilância sobre os próprios instrumentos de conhecimento, uma forma de crítica à naturalização das convenções disciplinares e das fronteiras que separam o que conta como história do que é relegado à condição de não saber.