CHAMADAS 2026

10-03-2026

VOL 26 - Nº2

DOSSIÊ: 100 ANOS DE “A PALAVRA NA VIDA E A PALAVRA NA POESIA”, DE VALENTIN VOLÓCHINOV

O ano de 2026 demarca o centenário do ensaio “A palavra na vida e a palavra na poesia: para uma poética sociológica” que integra o e se articula ao conjunto de escritos do Círculo de Bakhtin (Volóchinov, Medviédev) a que temos acesso por meio de suas traduções no Brasil. O ensaio é originalmente publicado em russo, em 1926, sob o título “Slovo v zhizni i slovo v poesie”, na revista Zvezda nº 6, e assinado por V. N. Volóchinov. A tradução para uso didático de “Discurso na vida e Discurso na arte (sobre poética sociológica)”, sob a autoria de Voloshinov/Bakhtin, feita a partir da tradução inglesa de I. R. Titunik (Discourse in life and discourse in art – concerning sociological poetics), publicada em Freudism, de Voloshinov (New York: Academic Press, 1976), feita por Carlos Alberto Faraco e Cristovão Tezza em 1988, começa a circular na web com livre acesso entre 1999 e 2000 com o advento da internet. Já a tradução direta do russo, “A palavra na vida e a palavra na poesia: para uma poética sociológica”, feita por Sheila Grillo e Ekaterina Vólkova Américo, foi publicada em 2019 pela Editora 34 e compõe a coletânea A palavra na vida e a palavra na poesia: ensaios, artigos, resenhas e poemas, que traz textos de autoria de Volóchinov. O ensaio é um texto basilar para os estudos discursivos e literários que constitui referência central e inaugura reflexões fundamentais sobre a inter-relação entre linguagem e produções artísticas. Partindo do princípio da inerência entre vida e arte, o ensaio, de autoria de Valentin Volóchinov, oferece uma reflexão aprofundada sobre o discurso estético e o cotidiano, consolidando a perspectiva de que a obra de arte não se apresenta como um objeto autônomo, mas como um acontecimento socialmente situado, inserido no contexto histórico que o produz, logo, permeado por ideologias subjacentes. Após cem anos de sua publicação, a relevância epistêmica desta produção segue mobilizando pesquisas que vislumbram a análise discursiva de objetos estéticos, observando-os como práticas sociais capazes de revelar a tensão dialógica entre o “dito” no espaço social e a sua ressignificação, subversão ou espelhamento no campo da arte. À luz desse feito, propomos celebrar o centenário de “A palavra na vida e a palavra na poesia: para uma poética sociológica” por meio deste dossiê, destinado a acolher estudos, concluídos ou em andamento, que abordem: (1) análises dialógico-discursivas de práticas enunciativas materializadas em produções literárias, performativas e/ou midiáticas; (2) mobilização do aparato conceitual do ensaio (palavra, enunciado, entonação, estilo, avaliação social, interação, sentido etc.) que encontra potencial analítico para a leitura de outras materialidades de diferentes semioses na contemporaneidade, extrapolando o campo literário e (3) reflexões histórico-teóricas sobre a recepção e a circulação do ensaio no Brasil e em outros horizontes críticos. Dessa forma, pretendemos fomentar reflexões sobre o papel da linguagem na constituição e na análise da arte e da vida cotidiana, acentuando a relevância deste ensaio para os estudos linguísticos e literários, sob um enfoque discursivo com uma prática social, histórica e cultural de linguagem.

 

EDITORES CONVIDADOS

Grenissa Stafuzza - Universidade Federal de Catalão

Manassés Morais Xavier - Universidade Federal de Campina Grande

Pedro Farias Francelino - Universidade Federal da Paraíba

 

REFERÊNCIAS

BAKHTIN, Mikhail Mikhailovich. Notas sobre literatura, cultura e ciências humanas. Organização, tradução, posfácio e notas de Paulo Bezerra. Notas da edição russa de Serguei Botcharov. São Paulo: 34, 2017 [1970-1971].

BAKHTIN, Mikhail Mikhailovich. Os gêneros do discurso. Tradução, posfácio e notas de Paulo Bezerra. São Paulo: 34, 2016 [1952-1953].

BAKHTIN, Mikhail Mikhailovich. Teoria do romance I: a estilística. Tradução, posfácio, notas e glossário de Paulo Bezerra. São Paulo: 34, 2015 [1930].

BAKHTIN, Mikhail Mikhailovich. Para uma filosofia do ato responsável. 2. ed. Tradução de Valdemir Miotello e Carlos Alberto Faraco. São Carlos: Pedro & João, 2010 [1920-1924].

MEDVIÉDEV, Pável Nikoláievitch. O método formal nos estudos literários: introdução crítica a uma poética sociológica. Tradução de Sheila Grillo e Ekaterina Vólkova Américo. São Paulo: Contexto, 2012 [1928].

VOLÓCHINOV, Valentin Nikolaevich. A palavra na vida e a palavra na poesia: para uma poética sociológica (1926). In.: VOLÓCHINOV, Valentin Nikolaevich. A palavra na vida e a palavra na poesia: ensaios, artigos, resenhas e poemas. Organização, tradução, ensaio introdutório e notas de Sheila Grillo e Ekaterina Vólkova Américo. São Paulo: 34, 2019 [1926], p. 109-146.

VOLÓCHINOV, Valentin Nikolaevich. A palavra na vida e a palavra na poesia: ensaios, artigos, resenhas e poemas. Organização, tradução, ensaio introdutório e notas de Sheila Grillo e Ekaterina Vólkova Américo. São Paulo: 34, 2019 [1926].

VOLÓCHINOV, Valentin Nikolaevich. Marxismo e filosofia da linguagem: problemas fundamentais do método sociológico na ciência da linguagem. Tradução, notas e glossário de Sheila Grillo e Ekaterina Vólkova Américo. São Paulo: 34, 2017 [1929].

VOLÓCHINOV, Valentin Nikolaevich/BAKHTIN, Mikhail Mikhailovich. O Freudismo. São Paulo: Perspectiva, 2001 [1927].

VOLOSHINOV, Valentin Nikolaevich/BAKHTIN, Mikhail Mikhailovich. Discurso na vida e discurso na arte (sobre a poética sociológica). Tradução de Carlos Alberto Faraco e Cristovão Tezza, para uso didático, a partir da tradução inglesa de I. R. Titunik (“Discourse in life and discourse in art – concerning sociological poetics”), publicada em V. N. Voloshinov, Freudism, New York. Academic Press, 1976 [1926].

 

PRAZOS

ENVIO ATÉ 30 DE MAIO  DE 2026

PUBLICAÇÃO ATÉ 31 DE AGOSTO

 

RLE - VOL 26 - Nº3

LITERATURA JUVENIL EM LÍNGUA PORTUGUESA: ENTRE A MATERIALIDADE E A FUSÃO DE GÊNEROS LITERÁRIOS

 A literatura juvenil (LJ) em língua portuguesa, escopo deste dossiê, ganha cada vez mais relevância no âmbito acadêmico, dada a expansão e diversificação da sua oferta, não só no aumento das obras publicadas, mas também no seu alargamento temático e formal, atravessando diferentes contextos culturais e editoriais. A emergência de novos(as) autores(as) e a migração de escritores(as) oriundos da literatura infantil, ou para adultos, a par da elisão de categorias rígidas na definição do público-alvo e da crescente permeabilidade  entre faixas etárias, da abordagem de temáticas fraturantes e do diálogo entre artes, entre outras tendências que vêm marcando a sua produção global (Ramos & Navas, 2016), evidenciam a vitalidade deste segmento e sua consolidação como nicho específico no mercado editorial, envolvendo, inclusive, as Políticas Públicas de Leitura. Todavia, mesmo com uma trajetória em afirmação, a LJ ainda carece de estudos críticos mais abrangentes, desde a criação de panoramas historiográficos até a sistematização de categorias analíticas específicas. A própria natureza de muitas obras, cruzando frequentemente fronteiras entre a literatura infantil e a juvenil, explorando fenômenos da crossover fiction (Beckett, 2009; Falconer, 2009), hibridizando gêneros e desafiando categorias tradicionais de classificação, dificulta a aplicação de critérios uniformes, reforçando a problematização de seus limites, tensões e processos de legitimação. Assim, este dossiê propõe-se acolher pesquisas que tratam da especificidade da LJ, desde a recorrência e renovação  temática, o hibridismo ou a elisão de gêneros, até os limites que supostamente definem os textos endereçados aos jovens e aqueles que integram a “literatura sem adjetivos” – aqui, apropriando-nos da discussão tecida por Andruetto (2012) –, e a influência do mercado editorial na categorização das obras compreendidas como juvenis, entre outras que possam contribuir com a discussão com vista à consolidação da LJ em língua portuguesa. Ademais, interessa-nos considerar a materialidade dessas obras como elemento narrativo, pois como argumenta Navas (2025), “não se trata apenas de uma renovação estética, mas de uma reconfiguração da experiência leitora, que mobiliza sensações, gestos e sentidos múltiplos”, isto é, na promoção de uma configuração estética que evoca o leitor a construir e ampliar sua experiência de leitura.

 

EDITORAS CONVIDADAS

Aline Barbosa Almeida - Universidade Cruzeiro do Sul

Andréia de Oliveira Alencar Iguma -INSTITUTO TRAVESSIA LITERÁRIA

Carina Rodrigues - Escola Superior de Educação de Lisboa (ESELx/IPL, Portugal)

 

REFERÊNCIAS

AMORIM, José Salomão David. Panorama da cultura de massa no Brasil. In: WRIGHT, Charles. Comunicação de Massa. Rio de Janeiro: Bloch editores, 1968. p. 123-155.

ANDRUETTO, María Teresa. Por uma literatura sem adjetivos. Tradução de Cecília Bajour. Pulo do Gato: São Paulo, 2012.

BAKHTIN, Mikhail. Epos e romance: sobre a metodologia do estudo do romance. In: Questões de literatura e de estética: a teoria do romance. Trad. BERNADINI, Aurora F. et al. 4. ed. São Paulo: Editora UNESP, 1998. p. 397-428.

BARTHES, Roland. Análise estrutural da narrativa. 7 ed. Petrópolis-RJ: Vozes, 2011.

BECKETT, Sandra L. Crossover fiction: Global and historical perspectives. New York: Routledge, 2009.

BELTRÃO, Luiz. Sociedade de Massa: comunicação e literatura. Petrópolis: Vozes, 1972.

BORELLI, Sílvia Helena Simões. Ação, suspense, emoção: literatura e cultura de massa no Brasil. São Paulo: EDUC/Estação Liberdade, 1996.

BOURDIEU, Pierre. As regras da arte: gênese e estrutura do campo literário. São Paulo: Companhia das Letras, 1996.

CAVALCANTE, Marianne Carvalho Bezerra. Mapeamento e produção de sentido: os links no hipertexto. In: MARCUSCHI, Luiz Antônio; XAVIER, Antonio Carlos. Hipertexto e gêneros digitais: novas formas de construção de sentido. 3 ed. São Paulo: Cortez, 2010. p. 198-206.

CANDIDO, Antonio. Literatura e sociedade. 13 ed. Rio de Janeiro: Ouro sobre azul, 2014.

______. O direito à Literatura. In: ______. Vários escritos. 3 ed. São Paulo: Duas cidades, 1993. p. 05-15.

______. Introdução. In: ______. A formação da Literatura Brasileira. 8 ed. Rio de Janeiro: Editora Itatiaia, 1997, v.1.

 

CECCANTINI, João Luís C. T. Uma estética da formação: vinte anos de Literatura Juvenil Brasileira Premiada (1978-1997). Assis: UNESP, 2000. 462p. Tese (Doutorado em Literatura de Língua Portuguesa). Faculdade de Ciências e Letras de Assis. UNESP, 2000.

______. Narrativas Juvenis e Mediações de Leitura. São Paulo: Cultura Acadêmica; Assis: ANEP, 2015.

CRUVINEL, L. W. F. Narrativas juvenis Brasileiras: em busca da especificidade do gênero. Goiânia: UFG, 2009. (tese).

ERIKSON, E. Identidade, juventude e crise. Rio Janeiro: Jorge Zahar, 1972.

FALCONER, Rachel. The crossover novel: Contemporary children’s fiction and its adult readership. New York: Routledge, 2009.

GREGORIN-FILHO, José Nicolau. Literatura juvenil: adolescência, cultura e formação de leitores. São Paulo: Melhoramentos, 2011.

GROPPO, Luis Antonio. Juventude: ensaios sobre sociologia e história das juventudes modernas. Rio de Janeiro: Difel, 2000.

ISER, Wolfgang. A interação do texto com o leitor. In: LIMA, Luis (Org.). A literatura e o leitor: textos da estética da recepção. 2 ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1978.

KRISTEVA, Julia. Introdução à semanálise. 2 ed. São Paulo: Perspectiva, 2005.

LARROSA, Jorge. Lectura, experiência y formación. Revista Lectiva.  Medellín: diciembro, 2007. N. 14.

______. Notas sobre a experiência e o saber da experiência. Revista Brasileira de Educação. n. 19, jan./fev./mar./abr. 2002. 

MACDONALD, Dwight. Massicultura e medicultura. In: Indústria da cultura de massa. Lisboa: Meridiano, 1971.

NAVAS, Diana. Literatura juvenil: fronteiras em movimento. São Paulo: Terracota, 2013.

RAMOS, Ana Margarida; NAVAS, Diana. Literatura juvenil dos dois lados do Atlântico. Porto: Tropelias & Companhia, 2016 [versão impressa] / São Paulo: Educ – Editora da PUC-SP, 2019 [e-book].

SOUZA E SOUZA, R. C. A ficção juvenil brasileira em busca de uma identidade: a formação do campo e do leitor. Rio de Janeiro: UFRJ, 2015.

SORÁ, Gustavo. Tempo e distâncias na produção editorial de literatura. In: Mana. vol.3 n.2 Rio de Janeiro. 1997.

VILLA-FORTE, Leonardo. Escrever sem escrever: literatura e apropriação no século XXI. Belo Horizonte: Relicário, 2019.

 

PRAZOS

ENVIO ATÉ 30 DE AGOSTO DE 2026

PUBLICAÇÃO ATÉ 20 DE DEZEMBRO DE 2026