A REFOTOGRAFIA COMO METODOLOGIA DE VISÃO DIACRÔNICA EM ARQUITETURA INDUSTRIAL
EQUIPE DE ARQUITETOS PARA O GRUPO TRAMONTINA
DOI:
https://doi.org/10.35572/arql.v4i13.7290Palavras-chave:
Pré-moldagem, Arquitetura Industrial, Equipe de Arquitetos, TramontinaResumo
Um dos projetos que se destaca na produção do escritório porto-alegrense Equipe de Arquitetos, liderado por Carlos Maximiliano Fayet e Cláudio Luís Gomes de Araújo, é o pavilhão industrial projetado em 1986 para o Grupo Tramontina. Localizado no município de Carlos Barbosa/RS, o projeto, com 20.000 m² de área construída, integra o Complexo Industrial da então Tramontina Ferramentas Agrícolas e Forjasul Materiais Elétricos e teve como diretriz projetual a adoção do sistema pré-moldado, garantindo organização espacial modular e configurando-se como um marco de certo pioneirismo técnico na região.
Com o objetivo de documentar e registrar temporalmente o projeto, bem como de identificar e evidenciar permanências, transformações e deslocamentos de sentido no ambiente construído, realizou-se um ensaio fotográfico fundamentado no método da “refotografia”. Tal abordagem permite interpretar a arquitetura como um processo contínuo, condicionado por dinâmicas produtivas, tecnológicas e culturais que se acumulam ao longo do tempo, evidenciando a elevada capacidade da edificação de absorver essas transformações. Nesse sentido, a “Refotografia” foi compreendida como um procedimento técnico de repetição de enquadramentos, mas também como um instrumento crítico de leitura temporal do espaço arquitetônico.
A metodologia do ensaio fotográfico baseou-se na seleção de oito fotografias realizadas pelo arquiteto e autor do projeto, Cláudio L. G. Araújo, na década de 1990, durante as fases de construção e de uso inicial do pavilhão. A partir desse acervo, foi realizado um novo ensaio fotográfico em fevereiro de 2024, buscando-se reproduzir, com a maior precisão possível, os mesmos pontos de vista, enquadramentos e ângulos das imagens originais. As fotografias foram posteriormente organizadas em dípticos, possibilitando uma leitura comparativa direta entre distintos momentos históricos da edificação. A abordagem dialoga com a metodologia do projeto “Rephotographic Survey” (1977), desenvolvido por Ellen Manchester, JoAnn Verburg e Mark Klett, ao transpor a dimensão poética da “refotografia” para o campo do registro e da análise arquitetônica.
O ensaio revela a coexistência de dois gêneros da fotografia arquitetônica, conforme proposto por François Soulages (1998): de um lado, a fotografia enquanto registro técnico e documental; de outro, a fotografia como meio de interpretação sensível das atmosferas, da luz e das relações entre espaço, trabalho e corpo humano.
As comparações evidenciam que as transformações observadas concentram-se majoritariamente nos sistemas técnicos, nos equipamentos industriais e nas infraestruturas aparentes, enquanto os elementos estruturais, as proporções espaciais e a lógica construtiva permanecem pouco alterados. Tal constatação reforça a noção de que a concepção arquitetônica original antecipou a necessidade de mutabilidade interna, dissociando o desempenho funcional da edificação de usos produtivos específicos.
A presença (ou a ausência) do trabalhador nas imagens revela mudanças significativas na relação entre corpo, espaço e produção. Enquanto os registros da década de 1990 enfatizam a escala humana e a incidência direta da luz natural sobre o trabalho manual, as imagens contemporâneas evidenciam a progressiva mediação tecnológica do processo fabril e redefinindo as atmosferas internas.
O ensaio fotográfico, assim, documenta a evolução do processo fabril de modo diacrônico e reafirma a Arquitetura Industrial Moderna brasileira no Sul como um suporte durável, flexível e capaz de sustentar transformações tecnológicas sem perder sua integridade espacial e conceitual.
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Referências
KLETT, Marcos. The Rephotographic Survey Project, disponível em: https://www.markklett.com/projects/rephotographic-survey-project, acessado em 26 jan. 2024.
SOULAGES, François. Estética da fotografia: perda e permanência. Tradução de Iraci D. Poleti e Regina Salgado Campos. São Paulo: Editora Senac São Paulo, 2010. p. 331-334.
MILANI, Guilherme B.. Arquitetura Industrial Moderna: Equipe de Arquitetos na Serra Gaúcha. Dissertação (Mestrado). Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Programa de Pós-Graduação em Arquitetura, PROPAR. Porto Alegre, 2025.
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