ECOS DA DOR: ANGÚSTIAS E DESAFIOS NA ESCUTA PSICOLÓGICA DE VIOLÊNCIAS
Palavras-chave:
escuta, violência, angústiaResumo
Introdução: A atuação do psicólogo é atravessada por uma complexa rede de desafios, sobretudo quando se trata da escuta de relatos de violência. Ao acolher histórias marcadas por dor e sofrimento, a escuta empática pode levar o cuidador a experimentar angústia diante dos dilemas que emergem na sala de atendimento. Objetivo: Neste trabalho, buscou-se levantar reflexões sobre a escuta psicológica de situações de violência e como estas histórias podem impactar no bem-estar e na saúde mental dos profissionais. Metodologia: Traz-se aqui um texto baseado na experiência e na percepção da autora, vivenciados ao longo de mais de vinte anos de atuação, nos quais se acolheu vítimas de violência física, psicológica, sexual, de gênero e tantas outras que perpassam a vivência social. Resultados e Discussão: É perceptível que a angústia é intensificada quando o conteúdo narrado pelo paciente desperta ressonâncias pessoais ou toca em feridas sociais. As histórias partilhadas descrevem detalhes sobre as situações de violência, que por vezes abarcam a própria experiência de vida ou os valores do profissional, gerando reflexões profundas e nem sempre positivas acerca do que significa existir no mundo. Outro ponto de crise diz respeito à decisão do paciente sobre denunciar ou não as violências sofridas. A fronteira entre respeitar a autonomia do outro e zelar por sua integridade pode ser bastante tênue. Se, por um lado, o psicólogo sabe da importância de estimular o fortalecimento do sujeito para que ele mesmo escolha como agir, por outro, pode se sentir pressionado pela urgência de romper o ciclo de violência. Considerações Finais: Escutar uma vítima de violência não é apenas acompanhar um relato, mas também encarar ecos internos que podem suscitar sentimentos de impotência ou tristeza. Essa sobreposição entre a vivência do paciente e as marcas do psicólogo torna o trabalho delicado, exigindo constante autorreflexão e elaboração pessoal. As tensões geradas pela condição humana do acolher não possuem respostas simples e colocam o profissional em conflito, em que o medo de incentivar uma denúncia se mistura ao receio de se omitir diante de uma injustiça. O psicólogo que enfrenta cotidianamente as dores do outro também precisa lidar com sua própria construção. Embora seja gratificante acompanhar a evolução pessoal de alguém, auxiliar pessoas a mastigar seus traumas para que elas possam futuramente digeri-los, pode ter um sabor bastante amargo na perspectiva de quem cuida. É lindo, mas emocionalmente desafiador.
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